Fernando Mota e Mário Melo Costa estiveram 1 semana em residência artística no Capelo a desenvolver o projecto multidisciplinar "Até ao Fim do Mundo", uma criação que cruza geologia, exploração musical e sonora dos elementos naturais, literatura e vídeo.
Inspirados pela natureza intensa que os rodeia, com especial enfoque no Vulcão dos Capelinhos, os artistas exploram a relação entre o tempo humano e o tempo geológico. Neste território moldado pelo fogo e pelo mar, reflectem poeticamente sobre as diferentes concepções de tempo ao longo da história, os ciclos de vida dos mais variados organismos do planeta e o lugar que ocupamos na escala profunda do tempo da Terra.
O projecto nasce do diálogo entre arte e ciência, em colaboração com geólogos dos geoparques portugueses e investigadores. Desta investigação resultarão três criações interligadas: uma performance, uma instalação audiovisual e um filme, diferentes formas de apresentar e relacionar os materiais gerados durante o processo.
Até ao Fim do Mundo completa uma trilogia iniciada com Passagem Secreta e continuada com Antes da Chuva Sopra o Vento, aprofundando a reflexão sobre quem somos agora.
O título inspira-se no último verso do poema Navio de Espelhos, de Mário Cesariny, evocando a ideia de atravessar o tempo, até ao limite do mundo que conhecemos.
A partir do Capelo, entre vulcões, mar e horizonte, esta criação convida-nos a escutar profundamente a Terra e a repensar o nosso lugar nela.
Durante a semana de residencia, a ondulação arrojou à costa dos Capelinhos uma volumosa raiz de árvore, já arredondada pelas ondas, que Fernando Mota recuperou e trouxe para o espaço da AvistaVulcão.
Rapidamente, usando os troncos como base começou a construir um instrumento de cordas, como uma harpa escultórica natural. O som é hipnótico e surpreendente.
É para nós particularmente estimulante testemunhar como a ilha e os seus elementos naturais se revelam não apenas cenário, mas verdadeira fonte de inspiração e como os artistas acolhem este tempo e este lugar com entusiasmo, deixando-se tocar pela sua energia singular.
Escola EBI-JI Capelo e Praia do Norte
Durante a sessão, o artista apresentou a sua mais recente criação: um instrumento musical único, construído a partir de um tronco encontrado na costa dos Capelinhos. O tronco foi transformado, ao longo da residência, num instrumento amplificado, onde natureza e som se fundem numa experiência sensorial surpreendente.
As crianças puderam ouvir pequenas peças sonoras interpretadas pelo artista, conhecer melhor o seu processo criativo e descobrir o projeto que esteve a desenvolver no Capelo. Num ambiente de partilha e descoberta, foram ainda convidados a experimentar o instrumento, explorando sons, ritmos e texturas e até a imaginar um nome para esta nova criação, que permanecerá no Templo de Inspiração como símbolo deste encontro.
Foi uma sessão de escuta, criatividade e ligação à natureza, onde a arte contemporânea se aproximou da comunidade escolar de forma viva e participativa.
Obrigada a todos os alunos e às professoras e auxiliares da Escola do Capelo e Praia do Norte.
No dia 28 de Fevereiro realizou-se a Oficina Sonora aberta à comunidade com o músico Fernando Mota que fez parte de um ciclo de atividades que visa expandir as fronteiras da criação sonora e da relação entre arte, natureza e território.
A atividade teve início no trilho do Costado da Nau, junto ao Vulcão dos Capelinhos, num percurso pela paisagem única formada pelas urzes e pelas pequenas faias que começam a germinar na areia vulcânica.
A oficina proporcionou aos participantes uma experiência imersiva, que teve início com a descoberta de uma árvore morta, uma faia parcialmente desenraizada. O momento foi marcado por uma pausa para exploração, em que Fernando Mota usou um microfone de contacto para captar os sons da árvore. Os participantes, munidos de auscultadores, foram convidados a interagir com a árvore, tocando-a como um instrumento musical, alguns dedilhando os ramos como cordas, outros utilizando um arco. O resultado sonoro foi inusitado e fascinante.
A experiência sonora foi ainda mais ampliada com a adição de cordas verdadeiras ao tronco da árvore, transformando-a numa espécie de viola de arco ou mini harpa, e trazendo-lhe uma nova vida sonora, que envolveu todos na experimentação.
Ao final do percurso, a oficina prosseguiu com a utilização de um microfone shotgun, captando os sons distantes das ondas do mar e das gaivotas que sobrevoavam a encosta do Vulcão dos Capelinhos, proporcionando uma conexão auditiva com o ambiente natural da região.
Na segunda parte da atividade, os participantes deslocaram-se para o Templo da Inspiração, no espaço da AvistaVulcão, onde Fernando Mota apresentou o instrumento de cordas que construiu durante sua residência no Capelo e compartilhou detalhes do seu processo criativo, exibindo excertos de trabalhos anteriores e antecipando o desenvolvimento da nova criação que será estreada no final deste ano, com o Vulcão dos Capelinhos como um dos seus principais elementos.
Fernando Mota é um artista multifacetado que cria instrumentos musicais experimentais e objectos sonoros a partir de árvores, pedras, água e outros elementos naturais, explorando as qualidades acústicas e simbólicas da matéria. Nesta residência, desenvolve processos de criação sonora em espaços naturais, escutando e transformando a paisagem em matéria musical.
Mário Melo Costa é diretor de fotografia, realizador e videoartista, acompanha e filma, já há alguns anos, as incursões de Fernando Mota nas artes performativas, criando simultaneamente outras imagens de forma autónoma a partir dos mesmos territórios, expandindo o projeto para as artes visuais e para a instalação audiovisual.